Ignorado pelo Oscar, ‘Reformatório Nickel’ encara crueldade racista nos EUA
Diante da luta contra a segregação nos EUA, 'Reformatório Nickel' impressiona por ser gravado em primeira pessoa. Drama foi indicado ao Oscar 2025 de Filme e Roteiro Adaptado
Comum na literatura, a narração em primeira pessoa até costuma ser utilizada pelo cinema, mas sem abandonar seu observador invisível. É possível vermos de dentro? Em “O Reformatório Nickel”, o diretor RaMell Ross radicaliza esse experimento na extensão completa do seu filme.
Por longas 2 horas e 20 minutos, somos colocados por detrás dos olhos de dois garotos negros que viviam nos Estados Unidos dos anos 1960 em pleno Movimento pelos Direitos Civis.
É + que streaming. É arte, cultura e história.
Quando se conhecem num reformatório na Flórida, Elwood e Turner fazem da amizade uma aliança para sobreviverem à crueldade que era viver naquele lugar hostil e profundamente racista.
A trama é uma adaptação do livro homônimo de Colson Whitehead - que venceu o Prêmio Pulitzer de Ficção em 2020. Resumido pelo júri como “um conto poderoso de perseverança, dignidade e redenção”, a trama foi baseada na história real de uma escola fundada ainda no século XIX e que mantinha práticas criminosas de tortura com seus internos. Apesar da má fama e das denúncias, ela só foi fechada 111 anos depois, em 2011.
“O Reformatório Nickel” foi indicado a Melhor Filme no Oscar 2025
No começo do filme, temos a visão de Elwood enquanto ele vagueia por breves memórias da infância e da adolescência: casa e escola, amigos, desconhecidos e sua mãe. É um olhar vacilante e quieto que nos apresenta esse personagem em plena contemplação de sua existência. Será que ele não está apenas lembrando?
É uma imersão tão fascinante naqueles sonhos, temores e carinhos, que a técnica parece ser incapaz de esgotar. Como estamos por detrás dos seus olhos, não somos capazes de vê-lo para além das mãos e dos pés quando está à sua frente.
Indicados ao Oscar 2025 já estão no streaming; saiba onde assistir
Em dado momento, ele para em frente a um conjunto de televisões que exibem um discurso de Martin Luther King. No reflexo do vidro da vitrine, finalmente vemos ele, Elwood, apenas um garoto. Quando vai parar no reformatório, somos imediatamente levados a olhar aquele lugar com desconfiança e tensão.
O experimento técnico só tropeça quando tenta ser muito exato, balizado e com movimentos tão alinhados que não nos deixa fugir dessa imaginação da câmera enquanto se olha a imagem. Mas isso acaba virando detalhe. O diretor é esperto porque resolve as cenas de conversa ao alternar o ponto de vista para Turner, que olha para o amigo sempre com muita atenção.
A troca de vistas e os saltos no tempo constroem uma sensação profunda de lamento e carinho, lado a lado, na revolta e no terror. Numa sequência emblemática, vemos uma perseguição a um garoto negro sendo intercalada com cenas de um foguete americano explorando o espaço sideral – simbolismo que enquadra o abismo de uma nação.
“O Reformatório Nickel” lança olhar a uma nova produção cinematográfica dos EUA
Além de tudo o que é óbvio, é um filme grandioso, mas íntimo e quieto. Falta muito disso no cinema popular dos EUA, um país tão orgulhoso de saber vender cinema, mas que cada vez mais evita se dedicar à invenção da linguagem.
Além da sua presença tímida no Oscar 2025, indicado num contexto que não lhe deu chance de qualquer vitória, “O Reformatório Nickel” foi lançado no Brasil três dias antes da cerimônia americana, sem alarde ou campanha, despercebido.
Exatamente como aconteceu com a “Ficção Americana” ano passado – os dois, inclusive, sendo os únicos filmes com diretores negros entre os indicados ao Oscar de Melhor Filme de seus respectivos anos. Uma negligência inesquecível.
“O Reformatório Nickel” está disponível no streaming Amazon Prime Video.
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