"Fernanda Torres já venceu", diz prestigiada revista dos EUA

"Fernanda Torres já venceu", diz prestigiada revista dos EUA

Atriz foi capa da The Hollywood Reporter e, na entrevista, elenca sucesso de "Ainda Estou Aqui", traz emoções sentidas na corrida para o Oscar e cita fatos históricos da ditadura no Brasil

A atriz brasileira Fernanda Torres, de 59 anos, é capa da revista americana The Hollywood Reporter neste sábado, 15. Parte da extensa campanha de divulgação do filme “Ainda Estou Aqui”, a edição conta com uma entrevista com a carioca, que tem como título “Fernanda Torres já venceu”.

Ao longo do texto, assinado por Seth Abramovitch, os feitos do filme dirigido por Walter Salles são elencados, junto das emoções sentidas por Fernanda durante a corrida para o Oscar 2025 de melhor atriz. Também são discutidos impactos e detalhes da ditadura militar no Brasil.

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O título da entrevista chamou atenção nas redes sociais, com internautas pontuando que seria um indicativo de possível vitória de Fernanda. Pode significar, ainda, a intenção da revista com o texto: elaborar que, por meio do sucesso global de “Ainda Estou Aqui”, Fernanda já venceu pelo fato de internacionalizar a história recente e ditatorial do País.

Na capa da edição, em que Fernanda aparece de perfil, vestindo um casaco bege, lê-se no subtítulo: “O Brasil inteiro estará sintonizado na noite do Oscar para ver se ela leva o prêmio de melhor atriz. Mas para a estrela de ‘Ainda Estou Aqui’, curar um trauma nacional é o triunfo supremo”.

Mãe da atriz e única outra indicada brasileira a melhor atriz, Fernanda Montenegro foi procurada pela The Hollywood Reporter — daí surgiu o título da entrevista. “Ela já venceu — antes, durante e depois. Ser indicada é o próprio Oscar”, comentou ela, que interpreta Eunice Paiva mais velha no filme.

Fernanda Torres ainda não comemorou vitória no Globo de Ouro

“Foi tão lindo quando eu estava caminhando em direção ao palco”, relembrou Fernanda sobre a noite em que venceu o Globo de Ouro 2025, há pouco de mais de um mês. “Então, Los Angeles estava pegando fogo”.

A tragédia na capital da Califórnia somada à agenda intensa da carioca durante a temporada de premiações a impediram de comemorar a vitória. “Acho que vou comemorar depois do Oscar, a coisa toda. Simplesmente não tive tempo”.

Falando em comemoração, a reação do público brasileira foi mencionada pela revista. Em conversa com Marcelo Rubens Paiva, um dos personagens do filme e autor do livro homônimo, a publicação escreveu que a noite da cerimônia do Oscar, em 2 de março, será como uma Copa do Mundo.

Cai no meio do Carnaval, então todos estarão comemorando — mas todos pararão para a cerimônia. Será como o pouso na lua”, comentou o autor.

“As pessoas estão muito animadas”, acrescentou Fernanda. “Eu também pude sentir isso em Portugal. Eles vêm até mim nas ruas e ficam muito comovidos. Estou meio acostumada, porque toda a minha vida vivi com minha mãe”.

Sucesso de ‘Ainda Estou Aqui’ no Brasil e no mundo

“Ainda Estou Aqui” estreou em solo nacional em novembro do ano passado. Só chegou nas salas de cinema americanas em janeiro. Do orçamento de R$ 8 milhões, o filme já arrecadou R$ 127 milhões em todo o mundo.

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“Está na 12ª semana [no Brasil] e é número um, de novo. Isso raramente acontece. É tão lindo ver que a sensibilidade de um país pode ressoar em outro”, comentou Fernanda Torres na entrevista.

A revista então salientou que “Ainda Estou Aqui” é mais que um sucesso de bilheteria: “serve como algo semelhante a um avanço terapêutico coletivo” para o Brasil. “Nós nunca conversamos sobre isso [os anos de ditadura]”, disse Fernanda. “É muito brasileiro. Varrer para baixo do tapete”.

Ela então relembrou de uma ocasião, durante o período de ditadura, em que seus pais foram detidos para interrogatório, que foi gravado e, depois, reproduzido para Fernanda e Fernando.

“Eles disseram à minha mãe: ‘Por que você riu quando ele disse isso?’ E ela ficou paralisada. Meu pai disse: ‘Você está enganada. Essa não é a risada dela.’ Ele os convenceu e eles a deixaram ir”, disse a filha.

Pessoas foram mortas. Uma bomba explodiu em um estádio. E minha mãe recebeu ameaças de morte no teatro. Houve uma ligação dizendo que se ela subisse no palco, ela seria morta”, acrescentou Torres.

Preparação para interpretar Eunice Paiva

Durante a entrevista, Fernanda relatou como foi trabalhar com Helena Vervaki, uma psicóloga grega e especialista em tragédias ancestrais.

“Ela trabalhava em memórias. Ela dizia: ‘Hoje eu quero que você se deite e ouça — porque eu acho que Eunice passa muito tempo na prisão ouvindo.’ Coisas que eu imaginei naquele dia ainda estavam comigo quando filmamos as cenas da prisão”.

Outra profissional, a treinadora Amanda Gabriel, também auxiliou na preparação de Fernanda. Ela era responsável pelos cinco atores que interpretam os filhos de Eunice em “Ainda Estou Aqui” — alguns dos quais nunca haviam atuado antes.

“No começo, eu não conseguia lembrar o nome de todos. Mas no final, era como se fossem meus filhos”, contou Fernanda.

O envolvimento da atriz foi tão profundo que, após filmar a cena do filme em que Eunice e as crianças estão em uma sorveteria, Fernanda se viu chorando fora das câmeras. “Isso não acontece comigo normalmente. Mas eu senti a presença de Eunice. Não era nada espiritual. A personagem estava lá comigo”’.

A atriz sublinhou que a história de Eunica não é trágica. “Ao dizer adeus à vida utópica, [Eunice] se torna ela mesma. Porque ela não era inteiramente ela mesma no começo do filme”, disse a carioca.

“Ela era uma mãe, uma dona de casa, a ‘grande mulher por trás do grande homem’. Mas depois da tragédia é quando Eunice se torna Eunice”.

“A palavra que encontro para Eunice é ‘civilidade’. Ela é um ser humano civilizado. E ela estava vivendo em um momento incivilizado da história. Então ela tinha que ser três vezes mais civilizada”.

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