Morre Mario Vargas Llosa aos 89 anos; escritor foi Nobel da Literatura
Polêmico em seus posicionamentos políticos, o peruano teve extensa carreira e recebeu diversos prêmios literários. Suas obras foram traduzidas para 30 idiomas
22:13 | Abr. 13, 2025

O peruano Mario Vargas Llosa morreu neste domingo, 13, aos 89 anos, em Lima. A morte foi anunciada por seu filho, Álvaro, nas redes sociais. Conforme os desejos do escritor, não haverá velório ou sepultamento abertos ao público.
A causa da morte não foi divulgada. O corpo de Vargas Llosa será cremado.
“Com profunda tristeza, tornamos público que nosso pai, Mario Vargas Llosa, morreu hoje em Lima, cercado por sua família e em paz. Sua partida entristecerá seus parentes, amigos e seus leitores ao redor do mundo, mas esperamos que você encontre conforto, como nós, no fato de que ele gozou de uma vida longa, múltipla e fecunda, e deixa um trabalho que sobreviverá a ele”, afirmou Álvaro, em nota assinada com os irmãos, Morgana e Gonzalo.
Con profundo dolor, hacemos público que nuestro padre, Mario Vargas Llosa, ha fallecido hoy en Lima, rodeado de su familia y en paz. @morganavll pic.twitter.com/mkFEanxEjA
— Álvaro Vargas Llosa (@AlvaroVargasLl) April 14, 2025Nascido em 1936, Vargas Llosa construiu longa carreira, tendo livros traduzidos para 30 idiomas. Em 2010, ele venceu o Nobel de Literatura.
A saúde do escritor foi afetada consideravelmente a partir de 2023, após ter sido hospitalizado em julho por contrair covid-19 pela segunda vez, quando vivia na Espanha. Em abril de 2022, ele havia sido infectado pela primeira vez.
Ele viveu esta última etapa sob os cuidados da filha Morgana e da ex-esposa Patricia Vargas Llosa.
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Morre Vargas Llosa: fãs e autoridades se despedem
Alguns fãs se aproximaram em silêncio da residência do escritor, no bairro boêmio de Barranco, na capital do Peru, e exibiram livros do Vargas Llosa.
“(Vargas Llosa) é um exemplo que mostra que uma pessoa pode viver fazendo aquilo que mais o apaixona, e em seu caso foi a literatura”, declarou à AFP David Marreros, um artista plástico de 30 anos.
A tristeza era evidente em Gustavo Ruiz, um filósofo, que, sem conter as lágrimas, afirmou que o escritor “foi uma referência muito importante que dizia que a literatura havia salvado sua vida”.
A presidente peruana, Dina Boluarte, lamentou o falecimento e afirmou que “seu gênio intelectual e sua vastíssima obra permanecerão como um legado imperecível para as futuras gerações”.
O presidente da Guatemala, Bernardo Arévalo, descreveu Vargas Llosa como “mestre da palavra, grande cronista da Hispanoamérica e intérprete agudo de suas rotas e destinos”. Ele acrescentou que “sua profusa e profunda obra literária permanece como um enorme legado para a América Latina e o mundo”.
“Entristecido ao saber do falecimento do grande escritor e intelectual peruano Mario Vargas Llosa”, comentou na rede X o subsecretário de Estado americano, Christopher Landau, que destacou que “seus temas e interesses eram atemporais e universais, como foi reconhecido pelo seu Prêmio Nobel de Literatura”.
“Mario Vargas Llosa faleceu, um Mestre dos Mestres. Nos deixa obra, admiração e exemplo. Nos deixa um rumo para o futuro”, escreveu também o ex-presidente colombiano Álvaro Uribe.
O escritor peruano Alfredo Bryce Echenique, amigo de Vargas Llosa, afirmou que a partida é “um luto para o Peru”. “Ninguém nos representou tanto quanto ele no mundo por sua obra em geral, sua teimosia, sua limpeza, sua enormidade”, acrescentou.
Admirado na literatura, polêmico nos posicionamentos políticos
Admirado por sua descrição das realidades sociais em obras-primas da literatura como “A Cidade e os Cachorros”, ou “A Festa do Bode”, no plano político seus posicionamentos liberais provocaram hostilidade em um meio intelectual que geralmente tende à esquerda.
“Nós, latino-americanos, somos sonhadores por natureza e temos problemas para diferenciar o mundo real e a ficção. É por isso que temos ótimos músicos, poetas, pintores e escritores, e também governantes tão horríveis e medíocres”, disse pouco antes de receber o Nobel em 2010.
Quando jovem, Vargas Llosa se sentiu seduzido por Fidel Castro, mas em 1971 rompeu com a Revolução Cubana por causa do caso do poeta Heberto Padilla, forçado pelo regime a fazer uma humilhante “autocrítica” pública.
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Foi candidato à presidência do Peru em 1990. Era o favorito até aparecer o então desconhecido agrônomo Alberto Fujimori, que foi eleito. Depois de seu fracasso eleitoral, voltou às letras, de onde - disse o escritor - nunca deveria ter saído.
Ainda assim, não se manteve alheio às vicissitudes da política mundial, atacando nos últimos anos o populismo, “a doença da democracia”, a extrema direita e a esquerda radical europeia e o nacionalismo independente.
Teve uma estreita amizade com Gabriel García Márquez, que terminou abruptamente em um incidente confuso que ambos preferiram não tocar.
“Deixe que os biógrafos cuidem desse assunto”, disse Vargas Llosa certa vez.
Quem foi Mario Vargas Llosa? Conheça história da família
Nascido na cidade de Arequipa, no sul do Peru, em 28 de março de 1936 em uma família de classe média, foi educado por sua mãe e seus avós maternos em Cochabamba (Bolívia) e depois no Peru.
Após seus estudos na Academia Militar de Lima, obteve uma licenciatura em Letras e, ainda muito jovem, deu seus primeiros passos no jornalismo.
Instalou-se em 1959 em Paris, onde se casou com sua tia Julia Urquidi, 10 anos mais velha, e exerceu várias profissões: tradutor, professor de espanhol e jornalista da Agence France-Presse.
Anos depois, separou-se de Urquidi e se casou com sua prima-irmã e sobrinha de sua ex-esposa, Patricia Llosa, com quem teve três filhos e 50 anos de relação.
Vargas Llosa se divorciou de Patricia após iniciar em 2015, com quase 80 anos, um romance com uma figura conhecida do mundo madrilenho, Isabel Preysler, ex-mulher do cantor Julio Iglesias.
Vargas Llosa: carreira e obras
Vargas Llosa fez parte do chamado “boom” latino-americano com outros grandes como o colombiano Gabriel García Márquez, o argentino Julio Cortázar e os mexicanos Carlos Fuentes e Juan Rulfo.
Sua longa carreira literária decolou em 1959, quando publicou seu primeiro livro de relatos, “Os Chefes”, com o qual obteve o Prêmio Leopoldo Alas. Depois, ganhou notoriedade com a publicação de “A Cidade e Os Cachorros”, em 1963, seguida três anos depois por “A Casa Verde”. Seu prestígio se consolidou com “Conversa no Catedral” (1969).
Naquela época, o autor peruano já afirmava que queria continuar escrevendo até o último dia de sua vida e cumpriu sua palavra com a publicação de obras como “O Herói discreto”, ou “Tempos Ásperos”, sobre a agitada história recente da Guatemala, que lhe rendeu o Prêmio Francisco Umbral de Romance.
Com suas obras traduzidas para 30 idiomas, Vargas Llosa foi prestigiado com os prêmios Cervantes, Príncipe de Astúrias das Letras, Biblioteca Breve, o da Crítica Espanhola, o Prêmio Nacional de Novela do Peru e o Rómulo Gallegos.
Obteve a nacionalidade espanhola em 1993.
Em 2023,Vargas Llosa se tornou o primeiro escritor a entrar para a Academia Francesa sem nunca ter escrito nada em francês. O peruano é tido como o último representante da geração dourada da literatura latino-americana. (Com informações da AFP)