Jorge Negrão: conheça o mestre da cultura que tem a capoeira como estandarte

Jorge Negrão: conheça o mestre da cultura que tem a capoeira como estandarte

Eleito como Mestre da Cultura a partir do Edital Tesouros Vivos, da Secult, Jorge Negrão compartilha sua jornada na capoeira cearense e fala sobre a importância da arte

A capoeira tem sua origem interligada com a luta contra a escravidão no Brasil. Surgiu como um meio de resistência dos escravizados, tendo sido proibida por ser considerada subversiva e violenta.

Jorge Luiz Natalense de Souza, mais conhecido como Jorge Negrão, domina o conhecimento sobre esse embate. O capoeirista de 67 anos foi reconhecido como mestre por meio do mais recente edital de Tesouros Vivos da Cultura, iniciativa da Secretaria de Cultura do Ceará (Secult).

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A vida do mestre se fundiu com a capoeira pela primeira vez ainda jovem. Ele lembra de estar indo ao centro comunitário, a pedido de seu pai, para fazer uma atividade do cotidiano: entregar uma prótese dentária ao dentista do lugar. Quando um senhor não identificado, sentado na calçada do equipamento cultural, o chamou e disse: “Você tem jeito para a capoeira”.

A partir desse momento, Jorge começou a notar o chamado do som do berimbau, a observar os passos e ritmos. “E eu disse 'olha, é a capoeira'. No outro dia, voltei para ver novamente”, relembra.

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Jorge Negrão e o Grupo Xangô de Capoeira 

A paixão pela capoeira veio acompanhada de desafios. O preconceito e os olhares julgadores eram constantes. Ele lembra que até a Polícia perguntava para onde ele ia “com essa vara”, quando andava com o berimbau na rua.

Da dificuldade nasceu o desejo de fazer a diferença. A missão de Jorge se tornou clara - ele queria desenvolver a capoeira no Estado. O agora mestre da cultura e outros capoeiristas criaram o Grupo Xangô de Capoeira, em 1973, no Centro Social Urbano Presidente Médici (CSU).

Juntamente com seu mestre, Zé Renato, também agraciado como mestre da cultura, em 2017, o grupo Xangô se tornou referência na capoeira cearense, com quatro tesouros vivos que surgiram com os feitos do coletivo e marcaram a década de 1970.

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Jorge Negrão e a Escola Negro Livre de Capoeira

Dois anos depois, em 1975, o mestre criou sua própria escola, chamada Escola Nego Livre de Capoeira. As aulas são administradas por ele e acontecem em sua casa, onde reúne crianças, adolescentes e adultos.

Já foi a campeonatos de nível nacional e chegou a ganhar os Jogos Escolares do Ceará (JEC). Mas, atualmente, a meta do grupo vai para além dos treinos: Jorge quer levar a capoeira para as escolas e a tornar a arte acessível para todos.

Ele enxerga aqueles que estão mais afastados, que possuem dificuldade em ter um berimbau, em conhecer a história e os livros. Livros estes que Jorge reclama não estarem sendo levados para os próprios capoeiristas. “Eu fui até a Biblioteca Pública (do Estado do Ceará), mas não temos livros (sobre o tema) ainda, não achei”, relata.

“O pessoal fala muito da Capoeira do Rio de Janeiro, de Salvador, de Recife, girando o mundo. Mas a nossa história ainda está paralisada”, ele expõe a situação e afirma lutar contra o apagamento da capoeira no Ceará.

Para ele, esse ensino e a educação são meios de vencer as diversas barreiras no Ceará, incluindo as territoriais. Os capoeiristas, segundo Jorge Negrão, ainda não podem ir a todos os lugares de Fortaleza por causa das disputas de território promovidas pelas facções.

“Quem mora na Barra (do Ceará) não pode ir para Parangaba. Os meninos ficam assim... Eu vou, mas não posso dizer que é do outro lado”, lamenta.

A sensação de perda na divulgação da arte existe, mas eles continuam a ultrapassar os limites ao receber convites para acessar esses locais.

“Nós temos nossa história, temos a nossa maneira de cantar, temos a nossa maneira de dançar. O que houve no passado era que a capoeira tinha um dia pra ser livre e viva. Essa é a ideia da capoeira”, conta.

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Jorge Negrão: mestre da cultura teve questões de saúde

Jorge também enfrentou problemas na saúde que o fizeram se afastar da prática. Ele relata a época em que teve que fazer a cirurgia de tireóide, procedimento que remove total ou parcialmente uma glândula.

O mestre, conhecido pela sua voz e que não perde a oportunidade de cantar, ficou sem fala por três meses. Para ele, essa foi a parte mais sofrida do processo.

A recuperação veio com calma. Treinava em frente ao espelho, com acompanhamento médico, e logo melhorou, voltando a ecoar seus cantos durante as rodas de capoeira.

O mestre não abandonaria a arte, precisava retornar. Tinha necessidade de continuar a cantar com os músicos e falar das histórias.

Outras lesões durante os treinos também já ocorreram. Relata ter ficado com o olho dolorido e o joelho machucado. Mas as dores passavam rápido. Ele se considera um homem saudável e atribui esse “poder” à prática da capoeira.

Ao som do hino da Escola Negro Livre de Capoeira, Jorge recita sua história e cria espaços para a expressividade da arte. “Lá no futuro, a gente vê o que é que pode lucrar. Mas o objetivo hoje é educar a capoeira. Para que entendam a nossa história", finaliza.

Isabella Pascoal/Especial para O POVO

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