Além de generais, 3º cearense está entre denunciados por participar de trama golpista
Segundo a PGR, tenente-coronel Rodrigo Bezerra de Azevedo, um "kid preto" participou de planejamento de ações coercitivas alinhadas ao plano antidemocrático
Além de Jair Bolsonaro e dos dois generais cearenses, um terceiro militar do Ceará aparece entre os denunciados pela Procuradoria Geral da República (PGR). Trata-se do tenente-coronel Rodrigo Bezerra de Azevedo, integrante dos "kids pretos".
A informação de que o denunciado Rodrigo é cearense foi dada em primeira mão pela rádio O POVO CBN, na manhã desta quarta-feira, 19. Rodrigo Azevedo fazia parte, segundo a denúncia, do que a PGR chamou de "ações coercitivas foram executadas por membros das forças de segurança pública que se alinharam ao plano antidemocrático".
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Juntamente com outros denunciados, Rodrigo é acusado de crimes de organização criminosa armada (art. 2º, caput, §§2º e 4º, II, da Lei n. 12.850/2013), abolição violenta do Estado Democrático de Direito (art. 359-L do CP), golpe de Estado (art. 359-M do CP), dano qualificado pela violência e grave ameaça, contra o patrimônio da União, e com considerável prejuízo para a vítima (art. 163, parágrafo único, I, III e IV, do CP), e deterioração de patrimônio tombado (art. 62, I, da Lei n. 9.605/1998), observadas as regras de concurso de pessoas (art. 2 9, caput, do CP) e concurso material (art. 69, caput, do CP).
Rodrigo fazia parte do grupo de cinco militares presos em novembro de 2024, na Operação Contragolpe, por supostamente planejarem um golpe de Estado para impedir a posse do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e "restringir o livre exercício do Poder Judiciário".
No fim de dezembro, o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, determinou a suspensão do direito de visitas ao tenente-coronel Rodrigo Bezerra Azevedo. Isto porque a irmã do militar, Dhebora Bezerra de Azevedo, tentou levar ao oficial detido uma caixa de panetone que também continha “um fone de ouvido, um cabo USB e um cartão de memória”.
Envolvimento de Rodrigo
A denúncia da PGR aponta que um grupo formado pelo tenente coronel Rodrigo Azevedo, além de Hélio Ferreira Lima, Rafael Martins de Oliveira e Wladimir Matos Soares, "lideraram ações de campo voltadas ao monitoramento e neutralização de autoridades públicas".
A denúncia cita ainda um grupo criado, envolvendo ao menos seis militares, que se preparava para a etapa final da operação "Copa 2022". A comunicação entre as partes era feita através do aplicativo Signal, no qual cada participante recebia o codinome de um país, utilizando linhas de telefonia móvel habilitadas em nome de terceiros, em reconhecida técnica de anonimização. Deste grupo, a PGR informa que a eficácia da técnica para o anonimato do grupo fez com que apenas Rodrigo Bezerra de Azevedo e Rafael Martins de Oliveira fossem identificados.
Ainda que todos os participantes da operação “Copa 2022” não tenham sido identificados, a participação do tenente-coronel foi descoberta pelo fato de o aparelho de IMEI e o terminal telefônico utilizados pelo agente de codinome “Brasil” terem se conectado, em 26/12/2022, a antenas próximas à residência do militar cearense.
O tenente-coronel cearense seria pessoa de confiança do major das Forças Especiais Rafael Martins de Oliveira, também denunciado e que, via aplicativo WhatsApp a contato nomeado “Filipo”, afirmou que Rodrigo é “o único que eu confio”.
O tenente-coronel também fazia parte do grupo no aplicativo WhatsApp denominado “....Dossssss!!!”, administrado por Mauro Cid e composto por membros das Forças Especiais. Em 30/12/2022, dia em que o ex-presidente Jair Bolsonaro deixou o país, rodrigo Azevedo declarou aos seus colegas: "Rapaziada esse grupo aqui pra mim perdeu a finalidade... deixo aqui um abraço pra FE de verdade que fizeram o que podiam pra honrar o próprio nome e as Forças Especiais...qq coisa estou no privado!!Força!!". Para a PGR, a mensagem "não deixa dúvidas de que ele havia atuado para garantir a permanência de Jair Bolsonaro no poder".
Depoimento
Em depoimento à Polícia Federal, Rodrigo declarou que possui formação em Forças Especiais do Exército e que, nos meses de outubro, novembro e dezembro de 2022, exercia a função de chefe da seção de preparo do Comando de Operações Especiais (Copesp). Confirmou, além disso, que estava na posse do aparelho celular identificado pelas investigações (vinculado ao codinome “Brasil”) e que cadastrou um chip utilizando dados de terceiros.
Relatou possuir relação próxima com Mauro Cid, com quem serviu no Batalhão de Ações de Comandos (BAC) em 2006; além de outros denunciados, como Mário Fernandes, que foi seu instrutor na AMAN e Comandante do BAC no período em que o depoente serviu; Hélio Ferreira Lima, colega de curso no ano de 2005; e o major Rafael Martins de Oliveira, colega de turma no BAC, BFE e AMAN.
Quem é Rodrigo Bezerra de Azevedo
Considerado um militar altamente qualificado, Rodrigo Bezerra de Azevedo é doutorando em Ciências Militares pela Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (Eceme) e possui especializações em operações de guerra não convencional.
Formado pela Academia Militar das Agulhas Negras (Aman) em 2003, já serviu como instrutor no Western Hemisphere Institute for Security Cooperation, nos EUA, e participou de missões no exterior, como na Costa do Marfim.
Além disso, comandou a Companhia de Comando do Comando Militar da Amazônia e tem expertise acadêmica em terrorismo e relações internacionais. Ele também integra o grupo "kids pretos", treinado para operações estratégicas.
Os "kids pretos" são militares do Exército Brasileiro treinados em Operações Especiais, conhecidos por usar gorros pretos durante missões. Formados em instituições como o Centro de Instrução de Operações Especiais, em Niterói, e o Comando de Operações Especiais, em Goiânia, esses profissionais são especializados em guerra não convencional, contraterrorismo e ações em ambientes de alta complexidade. A atuação do grupo é sigilosa, exigindo aprovação direta do Comando do Exército.