Entenda por que Cuba vive um dos maiores protestos dos últimos 60 anos
Manifestantes ocuparam as ruas da capital de Cuba, Havana, neste domingo, 11, para se manifestar contra a gestão do presidente Miguel Díaz-CanelCentenas de cubanos saíram às ruas neste domingo, 11, em vários locais de Cuba, em um dos maiores protestos na ilha nos últimos 60 anos. Antes deste domingo, o maior protesto ocorrido na região desde 1959 aconteceu em 1994, em frente ao Malecón em Havana. Porém, o ato aconteceu apenas na capital e com o número bem reduzido de pessoas.
Até as redes sociais da ilha têm servido, nos últimos tempos, para que os cubanos expressem seu mal-estar em relação ao governo e à situação no país. Durante o fim de semana, além do atos presenciais, com manifestantes gritando "liberdade" e "abaixo a ditadura", as páginas do governo cubano receberam centenas de hashtags, como #SOSCuba e #SOSMatanzas.
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Agora, também foi pelas redes sociais que os cubanos transmitiram ao vivo os diversos atos que começaram na cidade de San Antonio de los Baños, a sudoeste de Havana, e se espalharam para outras cidades, de Santiago de Cuba, no leste, até Pinar del Río, no oeste.
Entenda os principais pontos que explicam as manifestações cubanas:
Coronavírus
Na ilha, cujo turismo encontra-se praticamente paralisado, a pandemia do coronavírus teve um profundo impacto na vida econômica e social. Além disso, os manifestantes pretendem denunciar o crescente colapso dos hospitais e o crescente aumento do número de casos da Covid-19. Vários cubanos já afirmaram que seus parentes morreram em casa sem receber atendimento médico ou em hospitais por falta de remédios.
Embora o vírus tenha ficado sob controle nos primeiros meses de 2020, um aumento sucessivos de casos nas últimas semanas levou a região ao patamar dos locais com mais casos registrados em relação à população na América Latina. Apenas no último domingo, Cuba registrou oficialmente 6.750 casos e 31 mortes por Covid-19. Grupos de oposição alegam que os números não são reais e que vários óbitos aconteceram por outros motivos.
Com as hastags #SOSCuba e #SOSMatanzas, a população vem solicitando ajuda internacional e uma "intervenção humanitária" diante da situação. Na internet, também circulou vários vídeos de hospitais lotados em situação de colapso.
Economia
Sem grande movimentação econômica, a população cubana começou a enfrentar uma crescente inflação. A crise econômica já superou a mair que Cuba já vivenciou desde o conhecido "período especial" (realizada no início dos anos 1990 após o colapso da União Soviética). Não demorou para que a ilha começasse a presenciar apagões elétricos, escassez de alimentos, medicamentos e produtos básicos. Até o corte de energia tornou-se mais comum.
No início de 2020, o governo cubano propôs um novo pacote de reformas econômicas. A iniciativa fez disparar os salários e, logo depois, os preço dos produtos. Economistas estimam que os valores podem subir 500% e 900% nos próximos meses. Além disso, devido à pandemia, a população enfrenta longas filas para comprarem produtos básicos como, sabonetes, óleo ou frango.
Nas últimas semana, relatores apontam que inúmeras províncias realizaram a venda de pães à base de abóbora por falta de farinha de trigo. Recentemente, o governo cubano decidiu abandonar "temporariamente" dólares à vista, política considerada como a mais restritiva imposta desde o governo de Fidel Castro. A moeda, contudo, é a principal recebida pelos cubanos.
Redes sociais
O maior acesso à informação com a disseminação da Internet e das redes sociais na ilha também foi fator decisivo para o grande alcance que a manifestação tomou nos últimos dias. Os novos canais e as variadas possibilidades de meios de comunicação fez o discurso oficial da mídia estatal perder força e influência.
Com grande parte da população, principalmente os jovens, possuindo acesso ao Facebook, Twitter e Instagram, são destes canais que várias denúncias contra o governo e convocações para atos são feitas. Até as autoridades utilizam seus meios de comunicação oficiais para emitir posicionamentos oficiais.
A blogueira cubana de oposição Yoani Sánchez é uma das principais ativistas. Em sua conta no Twitter, ela acusou o governo de irresponsabilidade e reclamou que a reação aos manifestantes "é o apelo à guerra civil".
#Cuba Qué irresponsabilidad... esto es el llamado a una guerra civil: "La orden de combate está dada, a la calle los revolucionarios", amenaza Miguel Díaz-Canel #SOSCuba #CorredorHumanitario
Agora, destacam-se vários meios de comunicação independentes, com ferramentas antes restritas à mídia oficial. Nas mesmas plataformas, artistas, jornalistas e intelectuais tornaram-se os principais personagens e acabam por ser tornar um modelo por reivindiquem seus direitos.
Manifestações do governo
A reação do regime cubano diante da crise vem colaborado para intensificar as manifestações. A repressão policial e as falas do presidente Miguel Díaz-Canel, que pediu aos apoiadores do governo que saíssem às ruas para "enfrentá-los", demonstra a dificuldade de se lidar com opositores que, aos gritos, pedem "liberdade" e "pátria livre". O presidente do país chegou a se pronunciar na TV para convocar seus apoiadores a tomarem as ruas para "confrontar" os manifestantes.
Nesta segunda-feira, 12, o presidente cubano afirmou que os protestos aconteceram por problemas derivados das sanções econômicas aplicadas pelos EUA.
Sucessor dos irmãos Castro, o presidente Miguel Díaz-Canel fez um pronunciamento ao vivo para exigir que os "revolucionários" fossem às ruas para enfrentar os manifestantes.
— Eixo Político (@eixopolitico) July 11, 2021
Ele também acusou os Estados Unidos de estarem por trás das manifestações. pic.twitter.com/ST6Qi4K4QN
A ilha é governada pelo Partido Comunista há várias décadas. No local, não são permitidas manifestações. Em seu pronunciamento à nação, Díaz-Canel defendeu que a situação atual é igual à de outros países e que o vírus chegou tarde a Cuba porque antes o governo havia conseguido controlar a pandemia.
O presidente disse que muitos manifestantes são sinceros, mas manipulados por campanhas de rede social orquestradas pelos EUA e "mercenários" em solo cubano, e alertou que novas "provocações" não serão toleradas.
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