Entenda o que é sionismo, movimento que dá origem ao Estado de Israel
Foi o sionismo enquanto movimento político que deu corpo à criação do Estado de Israel, em 1947, logo após o Holocausto na Europa. Saiba mais sobre o movimento
16:24 | Out. 25, 2023
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O conflito no Oriente Médio tem entre seus principais elementos a busca de Israel por consolidar-se como um Estado. A base política-ideológica que deu origem à construção desse Estado é chamada de sionismo. Por isso, para entender o atual conflito no Oriente Médio, é preciso voltar no tempo.
O sionismo é um movimento surgido no século 19 na comunidade judia na Europa que buscava uma solução para a questão judaica. Naquela época, o antissemitismo – que é a discriminação contra os povos semitas, entre os quais, está o povo judeu – estava em crescimento no continente.
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Foi o sionismo enquanto movimento político que deu corpo à criação do Estado de Israel, em 1947, logo após o Holocausto na Europa, quando cerca de 6 milhões de judeus foram assassinados, principalmente em campos de concentração da Alemanha nazista. O termo sionismo faz referência ao Monte Sião, nome de uma das colinas de Jerusalém e usado como sinônimo de terra prometida, ou terra de Israel.
A definição do conceito sionismo gera divergências entre estudiosos e militantes de movimentos favoráveis e contrários à criação de um Estado judeu. Enquanto algumas correntes de pensamento apontam para o caráter laico do sionismo, outros acreditam que o movimento é necessariamente baseado na religião judaica.
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Além disso, enquanto seus defensores apelam para a necessidade de se estabelecer um local seguro para a população judaica, após as perseguições sofridas ao longo dos séculos, seus críticos consideram que a ideologia política por trás desse movimento é racista e colonial, sendo um obstáculo para a paz no Oriente Médio.
Para entender melhor o movimento político por trás da criação do Estado de Israel, a Agência Brasil entrevistou dois especialistas sobre o tema.
A primeira entrevistada é professora de pós-graduação em Relações Internacionais da Pontifícia Universidade Católica (PUC) de Minas Gerais Rashmi Singh. De origem indiana, ela estuda a questão árabe-israelense há mais de 20 anos e se especializou em temas como terrorismo, radicalização, crimes transnacionais e violência política.
O segundo entrevistado é historiador e professor do Departamento de Sociologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Michel Gherman. Judeu, ele também é assessor do Instituto Brasil-Israel e estuda temas como o antissemitismo e o sionismo.
Agência Brasil: O que é o sionismo e como podemos defini-lo?
Rashmi Singh: O sionismo é uma religião-política. É um jeito de pensamento que tira conceitos que são religiosos e coloca esses conceitos dentro de uma realidade moderna para objetivos contemporâneos e específicos.
É um movimento fundado na religião para objetivos políticos e modernos. Essa conexão entre religião e política é uma religião-política. Isso é a diferença entre judaísmo, que é religião, e sionismo, que é a combinação da fé e do pensamento religioso com objetivos políticos – nesse caso, o estabelecimento do Estado de Israel.
O sionismo começou em 1896 com um livro escrito pelo Theodor Herzl. Ele começou a falar do direito de os judeus terem um Estado próprio para viver em paz com sua identidade. O local foi a Palestina porque tem uma ligação histórica e bíblica.
Michel Gherman: Em resumo, eu diria que o sionismo é um movimento que se constitui pela construção da identidade nacional do povo judeu. Note que eu não falo sobre Estado de Israel quando defino o sionismo porque algumas correntes do sionismo, que é um movimento diverso, não têm como objetivo final a construção do Estado de Israel.
Tem correntes que falavam sobre uma confederação nacional árabe-judaica, algumas correntes falavam sobre autonomia nacional judaica e há correntes hegemônicas que falavam sobre um Estado nacional judaico.
Essa definição que eu dei é uma definição que tenta ocupar todos os espaços do sionismo, que dá conta de todos os projetos sionistas. O sionismo é influenciado por outros nacionalismos para oferecer uma resposta para a seguinte pergunta: qual a melhor solução para a questão judaica?
A gente pode entender que o sionismo se consolidou como resposta mais correta porque os judeus que saíram da Europa para construir um Estado-nação sobreviveram, os judeus que permaneceram na Europa falando das outras alternativas foram vítimas do Holocausto.
A situação começou a mudar depois da 1ª Guerra Mundial com a criação do Mandato da Palestina do Reino Unido. Antes mesmo do Reino Unido ganhar o controle do território palestino, o governo britânico lançou a Declaração de Balfour, em 1917, que deu apoio total ao estabelecimento dos judeus nesse local. A partir daí, temos enormes migrações de judeus europeus para a Palestina e, ao mesmo tempo, começou uma reação dos árabes contra essa migração.
Eles emigraram e começaram a comprar territórios e tinham um conceito de propriedade que não existia na Palestina. Os palestinos não tinham propriedade da terra. Nas décadas de 1920 a 1940 ocorre uma escalada da tensão entre os judeus e os árabes na região.
Por isso, as pessoas que estudam o conflito categorizam Israel como um Estado colonizador porque ele surge de uma ideologia europeia. Os palestinos não aceitaram a Resolução 181 das Nações Unidas [que sugere a criação de dois Estados, um para os judeus e outro para os palestinos] porque o Estado seria uma imposição dos colonizadores no território que era historicamente deles.
Então, as pessoas falam que a religião é a raiz do problema. Mas religião é a desculpa, é uma parte para entender o conflito, mas a raiz do conflito é o território.
Michel Gherman: São vários motivos. O primeiro é a hegemonização dentro do movimento sionista de uma corrente específica que foi hegemônica até os anos de 1970, que é o sionismo migratório de esquerda. É uma corrente trabalhista e social-democrata que tem como ideia principal a migração judaica da Europa e de outros países para a Palestina.
O objetivo era fazer essa migração sem acordo com as potências, principalmente ingleses e turcos, e também sem chegar a um acordo com os palestinos. Tinha que migrar e fazer com que as coisas acontecessem depois da migração por causa de duas questões: a disputa das potências naquela região enfraqueceria o projeto sionista e também pelo crescimento do antissemitismo.
A que se hegemonizou foi a corrente migratório social-democrata por causa das condições concretas da realidade. Primeiro, porque eles conseguiram produzir uma migração por conta do antissemitismo na Europa que aumentava muito e os judeus não tinham para onde ir porque as fronteiras foram fechadas, tanto nos Estados Unidos, no Canadá, na Austrália, na Argentina e no Brasil. Então, o destino palestino era o único possível para os judeus naquela época.
E, segundo, por causa do nazismo que provou que a única alternativa concreta era a criação de um Estado judeu na Palestina. A descoberta dos crimes nazistas foi tão forte que acabou impondo essa decisão do Estado judeu.
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Agência Brasil: O Estado de Israel privilegia os judeus? Há plena cidadania para outros povos dentro de Israel?
Rashmi Singh: É uma pergunta difícil porque você tem uma parte de árabes-israelenses dentro de Israel, mas eles têm, com certeza, menos direitos. Mas é difícil falar sobre isso porque não é uma coisa clara, tem muitas exceções. Mas, no geral, o que vemos, claramente, é que você tem essa divisão entre os judeus e a população árabe dentro de Israel.
Você vê também claramente diferenças entre judeus dentro de Israel. Em geral, o Estado tem menos espaço e menos oportunidades para judeus não europeus, como judeus africanos e asiáticos. Mas, com certeza, Israel é o local onde qualquer judeu pode migrar e se integrar à sociedade.
Michel Gherman: A própria questão entre os judeus, de quem pode e não pode ter cidadania plena, é problemática entre os próprios judeus porque o sionismo é um movimento profundamente secular e radicalmente não religioso na sua hegemonia. Sionismo não tem nada a ver com identidade religiosa, tem a ver com identidade nacional. Então, a questão religiosa é uma questão mal resolvida dentro do Estado de Israel.
É claro que há uma diferença entre cidadãos judeus e cidadãos árabes pelo próprio movimento nacional que – como qualquer movimento nacional – produz essa diferença entre os vencedores e derrotados do projeto, principalmente movimentos nacionais que têm referências étnico-nacional, que é o caso de Israel.
Nos últimos anos, a partir da década de 2000, tem se consolidado a corrente revisionista de direita que produz uma referência de que o Estado judeu tem que privilegiar cidadãos judeus, e um judeu de tipo específico: os religiosos-ortodoxos.
Isso tem se consolidado mais nos últimos cinco anos porque o [primeiro-ministro de Israel] Netanyahu tem caminhado para a extrema-direita sionista e ela implementou, há 4 anos, a lei nacional que colocou o privilégio da língua hebraica e do lar nacional judaico.