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De novo, o vice

Desde pelo menos 2015, primeiro ano do segundo - e breve - governo de Dilma Rousseff (PT), um personagem passou das coxias ao palco principal: o vice-presidente.

Michel Temer (MDB), se não por outra razão, entrará para a história como o vice que, mediante algum esforço, ora sutil, ora explícito, ascendeu à cadeira de titular do Palácio do Planalto. Na esteira da crise ao fim da qual a petista foi deposta, Temer foi progressivamente deixando a penumbra na qual se movimentava para se mostrar cada vez mais como aquele ator cujo perfil pacificaria o País naqueles anos de turbulência política. O fim dessa história é conhecido por todos.

Enredo parecido se deixa entrever agora na conduta do atual vice-presidente, o general Hamilton Mourão. Embora não se veja nele - ainda - predisposição para apear Jair Bolsonaro (PSL) da titularidade, tampouco o ambiente político é propício a tal manobra, nota-se certo empenho do militar em mostrar-se simpático a setores usualmente avessos ao político do PSL. É o caso das centrais sindicais, com parte das quais Mourão abriu diálogo.

O gesto é louvável, claro. Afinal, são instituições funcionando dentro do regramento legal. Ocorre que, somado a esse, há uma série de outros episódios cuja resultante aponta para um cenário já visto há pouquíssimo tempo: o vice está demasiadamente à vontade sob os holofotes.

Nada obriga a que o militar subscreva todas as opiniões do presidente. Mesmo durante a campanha, Mourão já se revelava controverso, perorando gratuitamente sobre um vasto leque de assuntos e criando problemas para o então candidato. Outra coisa, porém, é que seu comportamento, agora eleito junto com Bolsonaro, abra margem
para suspeitas.

Numa democracia, é inevitável que um governo tenha focos de tensão interna, originados em divergências entre os diversos auxiliares. É preocupante, no entanto, quando o vice movimenta-se de modo a sugerir, ainda que remotamente, que é uma alternativa viável em caso de impedimento do superior.

Por tudo que já se viu no Brasil, não seria saudável que, em meio a um ambiente polarizado, fruto da eleição mais acirrada desde a redemocratização, o vice-presidente passasse a pontificar sobre todo e qualquer assunto, cumprindo um roteiro de piscadelas à direita e à esquerda e colaborando para a instabilidade política. Definitivamente, esse não é o papel de um vice.

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