PUBLICIDADE
Jornal

A imprensa deve incomodar

Cleyton Monte
Cientista político, professor universitário e pesquisador do Lepem (Laboratório de Estudos sobre Política, Eleições e Mídia)
Cleyton Monte Cientista político, professor universitário e pesquisador do Lepem (Laboratório de Estudos sobre Política, Eleições e Mídia) (Foto: Cleyton Monte)

Todo início de governo fica no ar a mesma pergunta: qual vai ser a postura dos canais de televisão diante do novo governante? Sabemos que essas empresas possuem interesses econômicos e políticos. Alguns são explícitos, outros insondáveis. A imparcialidade da imprensa é um sonho inalcançável. A questão ganha relevância quando líderes assumem o poder com uma postura hostil ao trabalho jornalístico. Não há dúvida de que a liberdade de imprensa é um pilar da democracia. Contudo, para além desse princípio basilar, causa certa inquietação o silêncio ou a apatia de vários veículos de comunicação diante de escândalos. Acredito que o papel crucial da imprensa é incomodar os governos.

De Huxley a Orwell, passando por Clarke e Burgess, autores de distopias escritas no calor das guerras do século XX, símbolos do imaginário autoritário que se erguia a partir de uma imprensa imobilizada. O cenário é outro. Não temos regimes armados censurando a imprensa. Múltiplas vozes ecoam em diferentes plataformas, mesmo assim os enormes problemas não são aprofundados. Coberturas ficam pela metade. O enquadramento acaba beneficiando interesses palacianos ou vozes subterrâneas. Personagens são esquecidos. O espetáculo sensacionalista ganha lugar central. Um exemplo cabal. Tragédias como as que abalaram a cidade de Brumadinho tiveram como foco o resgate das vítimas. Muito bem, mas e a responsabilidade da mineradora? E a conivência do poder público?

Quando digo que a TV deve incomodar, não me refiro ao estilo udenista de conspiração, iniciado antes do golpe de 1964. Obviamente, não vejo essas empresas como heroínas da esfera pública. O essencial é que os governos saibam que estão sob o olhar atento de jornalistas que vão até o fim em suas investigações. A mídia tradicional perdeu parte significativa de sua credibilidade. A força das famílias que controlam as maiores redes de televisão foi abalada. Canais alternativos na internet passaram a ocupar espaço nessa busca pela dinamicidade dos fatos. A imprensa internacional joga seus holofotes sobre o Brasil. Creio que os veículos que optarem pela estratégia de apoio submisso aos governos de plantão, correrão sério risco de perder audiência. O jornalista poderá manchar sua reputação. Orwell sempre lembrava os perigos do servilismo midiático. n

Cleyton Monte

TAGS