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Cultivar o desejo de aprender

André Haguette  
Sociólogo e professor titular da Universidade Federal do Ceará - UFC
haguetteandre@gmail.com.br
André Haguette Sociólogo e professor titular da Universidade Federal do Ceará - UFC haguetteandre@gmail.com.br (Foto: Mauri Melo/Mauri Melo)

A cada novo ano escolar, faço-me as mesmas perguntas: por que não conseguimos nos tornar uma nação instruída; por que, a exemplo de tantos países, não logramos universalizar uma educação básica de qualidade; por que temos tanta resistência a aprender e a ensinar; por que tão poucos possuem o desejo de aprender e de ensinar?

Penso que as respostas se encontram na cultura de nossas famílias. Escrever, ler, estudar para aprender - diferentemente de falar - não são atos inatos nem impulsos instintivos. São virtudes adquiridas através da orientação que famílias passam a seus filhos, continuamente, geração após geração, dentro de determinados ambientes sociais. Há ambientes que não encorajam a aprendizagem individual e coletiva, até proíbem-na, como a escravidão e a pobreza extrema, duas pragas sociais que fazem parte de nossa herança coletiva. Há, no entanto, outros contextos econômicos que impulsionam e exigem cultivar, até cultuar, a vontade e a paixão pelos estudos, como as profissões técnicas, profissionais, de serviço e a propriedade de bens de capital de certos pais. Daí se pode dimensionar o nosso atraso em insistir em manter um duplo sistema de educação, o público e o privado, cada um com públicos diametralmente opostos em termos de valorização e investimento na aprendizagem escolar.

Nesses dias, a televisão passa e repassa uma campanha publicitária de um renomado colégio privado cearense, comercial magistralmente conduzido por Fernanda Montenegro, que, elogiando a performance dos alunos da instituição em vestibulares, conclui: "grandes alunos, grandes professores, grande colégio". A mensagem fica incompleta e truncada, omitindo o mais importante, a família; o certo seria dizer: "grandes e abastadas famílias, grandes alunos, grandes professores e grandes colégios privados ou públicos". A família é a raiz de toda boa aprendizagem, a começar pelo cultivo da necessidade e do desejo de aprender. Sabe-se, com efeito, o quanto essas famílias abastadas de "grandes alunos" investem diariamente em motivação, esforços, disciplina e recursos financeiros para desenvolver nos seus filhos o desejo e a disciplina de estudar para aprender. Ao nascer, a tartaruga corre para o mar; os humanos não nascem correndo para o estudo; o desejo de estudar para aprender lhes é insuflado pela persistência de pais que compreendem que, numa sociedade de conhecimento, só têm êxito os altamente escolarizados.

O sucesso escolar, portanto, não é, em primeiro lugar, resultado dos esforços de professores e de escolas, mas de um longo e constante trabalho coletivo; de uma persistente ação educativa da e na família. Reunir todos os alunos num único sistema público escolar é necessário, embora improvável. É, todavia, possível trabalhar para desenvolver nos pais a convicção da necessidade de nutrir nos filhos o desejo de estudar para aprender. Pesquisas internacionais (Pisa) mostram que filhos de famílias carentes podem ter boa aprendizagem quando instigados pelos pais. n

André Haguette

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