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A mulher por trás da foto impossível

A cientista ficou famosa após desenvolver o algoritmo que mostrou ao mundo a imagem de um buraco negro

14/04/2019 02:01:45
Katie Bouman é engenheira eletricista e tem 29 anos.
Katie Bouman é engenheira eletricista e tem 29 anos. (Foto: Arquivo pessoal)

Heloísa Vasconcelos

heloisavasconcelos@opovo.com.br

Quando ingressou na equipe do Event Horizon Telescope há seis anos, Katherine Louise Bouman, conhecida como Katie Bouman, não sabia nada sobre buracos negros. Sequer podia imaginar que seria a responsável por desenvolver o algoritmo que tornou possível visualizar um deles pela primeira vez. A cientista americana de 29 anos liderou uma equipe de mais de 200 pessoas nos últimos três anos, todos unidos na tentativa de conseguir a foto considerada, até então, impossível. O resultado veio aos olhos do mundo inteiro na última quarta-feira, 10.

Até então, só era possível fazer simulações de como um buraco negro se pareceria. Isso porque essa região no espaço tem uma força de gravidade tão poderosa que nada, nem mesmo a luz, pode escapar, impossibilitando o envio de satélites. O buraco negro supermassivo fotografado está no centro da galáxia M87, a 53,5 milhões de anos-luz da Terra. Para obter uma imagem clara, seria necessário, teoricamente, um telescópio do tamanho da Terra. Em uma palestra ministrada por Katie no TEDxBeaconStreet em 2017, ela compara a dificuldade, em proporção, a fotografar uma laranja na lua.

Diante da impossibilidade de construir um telescópio tão grande, foram dispostos oito telescópios menores em diferentes pontos da Terra. O algoritmo desenvolvido por Katie Bouman, iniciado quando ela ainda era estudante de pós-graduação no Instituto de tecnologia de Massachusetts (Massachusetts Institute of Technology - MIT), permitiu juntar todos os dados captados por esses equipamentos para formar o que pôde ser visualizado pelo mundo na semana passada. "Assim como um artista forense usa descrições limitadas para formar uma imagem usando seu conhecimento sobre o formato do rosto, os algoritmos de imagem que eu desenvolvi usam nossos dados limitados de telescópios para compor uma imagem", explicou a jovem no TEDxBeaconStreet.

A equipe inteira trabalhou durante três anos analisando a captura de imagens e a seleção de parâmetros de uma série de dados esparsos e barulhentos vindos dos telescópios. Vários grupos se dividiram e utilizaram o algoritmo, esperando gerar a imagem do buraco negro. "Quando vi que todas as equipes tinham imagens muito similares, esse foi o momento más feliz pelo qual já passei", compartilhou Katie com o Wall Street Journal.

A imagem, por si só, é um passo gigantesco para a astrofísica. Os anéis vermelhos visualizados comprovam a teoria da relatividade, de Albert Einstein. Por causa da gravidade intensa perto de um buraco negro, a trajetória da luz, correspondendo à radiação do disco, é deformada em torno do horizonte e por isso aparece dessa forma.

Katie ficou conhecida por todo o mundo após sua foto ao olhar incrédula a imagem desenvolvida viralizar. Ela foi comparada com Margaret Hamilton, cientista responsável pela elaboração do programa de voo que levou o primeiro homem à lua, há 50 anos. Cientistas chamaram atenção por serem mulheres em um campo até hoje majoritariamente masculino, a ciência.

"Nenhum de nós poderia ter feito isso sozinho. Eu gostaria de encorajar todos vocês a saírem e ajudarem a ultrapassar os limites da ciência, mesmo que a princípio pareça tão misterioso para você quanto um buraco negro", afirmou a cientista à CNN.

Apesar do envolvimento na astronomia, esse não era inicialmente o foco acadêmico de Katie Bouman. A jovem de Indiana, nos Estados Unidos, fez graduação na Universidade de Michigan, concluindo em 2011 o curso de Engenharia Elétrica. Depois, foi para Cambridge, Massachusetts, onde obteve, no MIT, mestrado em Engenharia Elétrica e Ciências da Computação em 2013. Obteve em 2017 um doutorado pela mesma instituição e, desde então, é professora do departamento de Computação e Ciências Matemáticas do Instituto de Tecnologia da Califórnia (Caltech), além de estudante do pós-doutorado da Universidade Harvard.

Atualmente, ela descreve sua prioridade científica como tornar "possível observar fenômenos anteriormente difíceis ou impossíveis de medir com abordagens tradicionais", conforme seu perfil no site da universidade que leciona. O próximo passo para a equipe deve ser prosseguir com a realização de vídeos dos buracos negros e, revelar outros aspectos físicos, como os campos magnéticos nestes objetos.

PERFIL

Katherine Louise Bouman

Nascimento: 9 de maio de 1989 

West Lafayette, Indiana

Nacionalidade: norte-americana

Formação: Instituto de Tecnologia de Massachusetts, Universidade de Michigan

Ocupação: cientista da computação, engenheira eletricista

Empregador: Instituto de Tecnologia da Califórnia, Universidade Harvard

HELOISA VASCONCELOS