Marine Le Pen, de herdeira política a dúvida nas eleições presidenciais da França em 2027
Uma das principais lideranças da direita radical na Europa, Marine Le Pen pode ficar fora da próxima disputa na França.

A líder da direita radical na Europa, Marine Le Pen, apontada por muitas pesquisas de opinião como a favorita para a eleição presidencial na França em 2027, tornou-se inelegível por cinco anos nesta segunda-feira (31/3).
Condenada por se apropriar indevidamente de verbas públicas para financiar seu partido, o Reunião Nacional (RN), Le Pen foi sentenciada a quatro anos de prisão, dois dos quais em caráter efetivo, que ela poderá cumprir usando tornozeleira eletrônica. Le Pen também foi condenada a uma multa de 100 mil euros (R$ 623 mil reais). Ainda cabe recurso sobre a decisão de prisão.
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Le Pen, que já concorreu três vezes à Presidência da França e perdeu as últimas duas disputas para o atual presidente, Emmanuel Macron, classificou sua condenação como uma "decisão política" que está tentando impedir sua candidatura em 2027, à emissora francesa F1.
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Marine Le Pen é herdeira política de seu pai, Jean-Marie Le Pen, fundador do partido Frente Nacional (FN), em 1972, que deu origem ao atual Reunião Nacional.
Jean-Marie Le Pen morreu em janeiro, aos 96 anos, deixando na história sua imagem de negacionista do Holocausto e responsável por declarações extremistas sobre questões de raça, gênero e imigração.
Caçula de três irmãs, Marine Le Pen, se graduou em Direito em 1990 e demorou para entrar na política. Recém-formada, ela atuava na defesa de réus que não podiam pagar por um advogado, o que envolvia, às vezes, imigrantes ilegais — tema sobre o qual ela se mostraria bastante dura anos depois.
Foi sua irmã mais velha, Marie-Caroline, quem se lançou primeiro na política, sendo eleita conselheira regional (equivalente a deputado estadual) pela Frente Nacional. Acreditava-se que Caroline seria a sucessora natural do pai.
No entanto, ela foi renegada por Jean-Marie nos anos 1990 por se aliar a um partido nanico da extrema-direita, o Movimento Nacional Republicano, surgido a partir de um racha na FN.
A outra irmã, Yann, também esteve ligada ao partido, mas com funções mais modestas. Trabalhou como telefonista e na organização de eventos — e chegou a ser demitida duas vezes, uma delas pela necessidade de cortar custos.
De advogada a política
Em 1998, a carreira de Le Pen não estava evoluindo. E o fato de ela ter sido boicotada por outros colegas por causa da política de seu pai não ajudou em nada.
Depois de seis anos, ela abandonou a prática da advocacia para assumir o cargo mais alto no departamento jurídico da Frente Nacional.
Após a mudança profissional, apareceram queixas de nepotismo, mas, em 2004, ela foi eleita para o Parlamento Europeu e lá permaneceu por 13 anos.
Ao longo desse período, Le Pen assumiu como chefe da Frente Nacional em 2011, rebatizou o partido para Reunião Nacional e o transformou em uma das principais forças políticas da França.
Marine também atuou na expulsão de seu pai da sigla em 2015, após novas declarações antissemitas. Ali, os dois romperam a relação.
"Tenho minha personalidade e minha própria percepção do exercício de responsabilidades. Durante quarenta anos, Jean-Marie Le Pen representou a Frente Nacional. Hoje, sou eu, e não ele, a encarregada de seu futuro e de suas ideias", afirmou, na época, Marine.
Mesmo antes de assumir como líder do Reunião Nacional, ficou claro que ela tinha dúvidas sobre algumas das ideias de seu pai sobre o nazismo.
Quando, em 2005, Jean-Marie Le Pen declarou a uma revista que a ocupação alemã da França "não era tão desumana, mesmo que houvesse algumas manchas", ela cogitou abandonar a vice-liderança do partido.
Apesar da briga, Jean-Marie Le Pen emprestou 6 milhões de euros para a campanha presidencial da filha em 2017. Marine perdeu a disputa no segundo turno para Emmanuel Macron.
A presidente da Frente Nacional optou, após romper com o pai, por tentar limpar a imagem de racista, xenófobo e antissemita que o partido tem desde sua fundação.
O partido hoje mantém um duro discurso anti-imigração, dá destaque à criação de empregos e ao combate a ideologias islâmicas que classifica como "perigosas".

No ano passado, o Reunião Nacional saiu na frente das eleições parlamentares na França, e os olhos se voltaram a Jordan Bardella: um jovem de 29 anos, que abandonou os estudos nos subúrbios de Paris, tornando-se o protegido de Le Pen.
Bardella entrou para o partido aos 17 anos, e sua ascensão foi meteórica. Isso aconteceu porque ele se tornou parte do círculo próximo de Le Pen.
Grande parte do alto escalão do RN gira em torno de relações pessoais e lealdade ao clã, como acontecia quando o pai de Le Pen, Jean-Marie, estava à frente do partido. Bardella começou a namorar a filha de um veterano da FN, Frederick Chatillon.
Poucos dias após ter sido apresentado a Le Pen em 2017, ela o nomeou porta-voz do partido.
Em 2019, pediu a ele para encabeçar a lista de candidatos do partido nas eleições europeias, que o RN ganhou. Ele se tornou eurodeputado. E, em 2022, ela fez dele presidente do partido.
Se o RN conquistasse outra grande vitória após o segundo turno, a expectativa era de que Bardella fosse nomeado primeiro-ministro.
Mas, apesar dos resultados expressivos das forças direitistas na votação para o Parlamento europeu e no próprio primeiro turno dessa eleição para o Parlamento, na hora da definição a população francesa recuou — algo que já havia acontecido em eleições presidenciais no país.
O resultado deixou o Reunião Nacional como a terceira força mais votada na Assembleia Nacional.
Hoje, enquanto Marine Le Pen tenta "limpar" a imagem do partido deixada por seu pai, ao mesmo tempo em que está fincada na figura de uma política da direita-radical, sua sobrinha, Marion Maréchal-Le Pen, defende a linha dura do partido, em detrimento da linha mais branda imposta pela tia Marine.
Marion foi a mais jovem deputada da história política do país, eleita aos 22 anos. Frequentemente, ela tem divergências com a tia Marine, em temas como aborto.
A mãe de Marion e irmã de Marine, Yann, foi a única filha de Jean-Marie a visitá-lo quando ele foi hospitalizado, no ano passado, em razão de um edema pulmonar.
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