Por que plano da China de virar potência do futebol deu tão errado
População gigante, economia em crescimento e um Partido Comunista liderado por um grande fã de futebol, o presidente Xi Jinping. O que poderia dar errado? Aparentemente, muita coisa.

Numa noite de quinta-feira quente e úmida em Saitama, no Japão, a seleção nacional de futebol da China atingiu o seu ponto mais baixo.
Com um minuto restante no relógio e perdendo por 6 a 0 para os japoneses, os defensores chineses provavelmente ansiavam pelo alívio do apito final.
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Mas Takefusa Kubo, do Japão, não estava disposto a ser caridoso.
Após ver seus companheiros de equipe brincarem com os adversários por um tempo, ele recebeu um passe na entrada da área chinesa e finalizou com força, marcando o sétimo gol japonês.
A bola explodiu na rede, e o jogador conhecido como "Messi japonês" condenou a China à sua pior derrota em uma eliminatória da Copa do Mundo.
A goleada por 7 a 0 em setembro – descrita como "o fundo do poço" por um jornal de Xangai – foi apenas mais um episódio em uma série de humilhações ao longo do último ano, que incluíram derrotas para Omã, Uzbequistão e Hong Kong.
Mas o pior ainda estava por vir.
Uma semana depois, dezenas de jogadores, treinadores e dirigentes foram presos por envolvimento com apostas, manipulação de resultados e suborno, como parte de uma investigação de dois anos sobre corrupção no futebol chinês.
E as derrotas continuaram. Na última terça-feira (25/3), a Austrália venceu a China por 2 a 0 em Hangzhou, deixando a seleção chinesa na lanterna de seu grupo nas eliminatórias para a Copa do Mundo.
Não faz muito tempo, a China sonhava em se tornar uma potência do futebol.
Tinha a maior população do mundo, uma economia em crescimento e um Partido Comunista determinado, liderado por um grande fã do esporte, o presidente Xi Jinping.
O que poderia dar errado?
Aparentemente, muita coisa.
Os desejos de Xi Jinping
Quando Xi assumiu o poder em 2012, seu amor pelo esporte motivou um impulso para reformar e melhorar o futebol chinês. Seu sonho, como ele mesmo disse uma vez, era que a China se classificasse para a Copa do Mundo, sediasse o torneio e, por fim, ganhasse o título. Esses eram seus "três desejos".
Mas, uma década depois, até Xi parecia ter perdido a fé. Enquanto conversava casualmente com o primeiro-ministro da Tailândia à margem de uma cúpula internacional em 2023, o presidente chinês foi ouvido dizendo que a China "teve sorte" em uma vitória recente contra a Tailândia.

"Quando o governo da China coloca algo em sua mente, raramente falha", diz Mark Dreyer, um jornalista esportivo baseado em Pequim. "Olhe para os veículos elétricos, olhe para as Olimpíadas. Praticamente qualquer setor que você possa imaginar, a China está lá em cima."
Mas o futebol, ao que parece, não conseguiu prosperar sob o controle do Partido Comunista.
Um relatório do governo em 2015 observou que a Associação Chinesa de Futebol (CFA) deveria ter "autonomia legal" e deveria ser "independente" da Administração Geral de Esportes (GAS).
Até mesmo Xi admitiu que, se a China quisesse ter sucesso, o Partido teria que fazer o que ele raramente faz: soltar as rédeas.
E ainda assim, Pequim não soltou.
"O fracasso da China no futebol se tornou uma vergonha nacional e descobrir as razões disso se tornou uma obsessão nacional", disse Rowan Simons, autor do livro Bamboo Goalposts: One Man's Quest to Teach the People's Republic of China to Love Football (Traves de bambu: a busca de um homem para ensinar a China a amar o futebol, em tradução livre), à BBC.
"Mas, para mim, as razões são bem claras e elas dizem muito sobre como o país é administrado."
O problema, ele e outros argumentam, é que o Estado de partido único da China impõe decisões de cima para baixo. Embora isso seja eficaz para o crescimento econômico, resulta em péssimos resultados em esportes coletivos.
Embora a Fifa proíba a interferência estatal, o futebol chinês está cheio de nomeações políticas. Isso é comum na China, onde o Partido controla a maioria dos aspectos da vida pública.
O atual presidente da CFA, Song Cai, também é vice-secretário do Partido Comunista. Seu trabalho, por sua vez, é supervisionado por um alto funcionário do GAS.
"Tudo tem que ser reportado para os chefes do Partido Comunista. Basicamente, isso significa que pessoas que não são do futebol estão tomando decisões sobre o futebol", diz Dreyer. "O futebol tem que ser liderado pela base. Você começa na base da pirâmide e o talento vai subindo até o topo."
Todos os grandes países do futebol têm uma "pirâmide" de campeonatos. Os clubes profissionais de elite estão no topo, apoiados por um vasto número de equipes semiprofissionais e amadoras, cujos jogadores competem para subir.
Tal pirâmide prospera em uma cultura de jogar futebol em massa, por diversão. Quanto maior a base para tirar jogadores, melhores serão os atletas no topo.

"Se você olhar para cada país onde o futebol é realmente bem-sucedido, o esporte cresceu de forma orgânica como uma atividade de base ao longo dos últimos 100 anos", diz Simons.
"O futebol profissional na China tem falhado continuamente porque não é apoiado por nada – sua pirâmide está de cabeça para baixo."
As estatísticas comprovam isso: os 1,3 milhões de jogadores registrados da Inglaterra são muito mais do que os menos de 100 mil jogadores da China. Isso apesar da população da China ser 20 vezes maior que a da Inglaterra.
"As crianças aqui não crescem com uma bola nos pés. Sem isso, você não vai produzir talentos de elite", diz o jornalista Mark Dreyer.
O futebol de alto nível na Europa e na América do Sul tem suas origens nas ruas e parques de todas as cidades e vilarejos. Na China, no entanto, o impulso começou em Pequim, a capital.
Foi só nos anos 1990 que o governo estabeleceu a primeira liga profissional do país. Criou alguns clubes de topo nas principais cidades, mas negligenciou as bases.
Ansiosos para impressionar seus superiores, os oficiais nesse sistema de cima para baixo inevitavelmente optam por uma abordagem "de curto prazo" que sacrifica uma melhoria genuína ao longo do tempo por soluções rápidas, explica Dreyer.
Alguns estrangeiros que jogaram na China dizem que esse sistema fortemente controlado também deixa pouco espaço para que os jovens jogadores desenvolvam uma compreensão natural do jogo.
Um europeu que atualmente joga na China, e que não quis revelar seu nome, disse à BBC que, embora muitos jogadores chineses sejam "tecnicamente bons", falta a eles "QI de futebol" em momentos cruciais no campo.
"Criatividade e tomada de decisão básica, que aprendemos instintivamente quando crianças, você não vê muito por aqui", diz o jogador.
'Sinto muito': um sonho destruído
Isso não significa que não haja uma paixão por futebol na China.
Enquanto a seleção masculina, atualmente em 90º lugar no ranking da Fifa, é vista como uma decepção constante, a seleção feminina, em 17º no ranking, é uma fonte de orgulho há anos.
Muitos na China se referem a elas como a verdadeira seleção nacional - e, em 2024, um número recorde de 53 milhões de pessoas ligaram a TV para vê-las jogar (e perder por 6 a 1) contra a Inglaterra na Copa do Mundo.
A Superliga masculina ostenta a maior média de público de qualquer campeonato na Ásia. Em seu auge, na década de 2010, atraía grandes jogadores estrangeiros enquanto se beneficiava de um investimento das empresas estatais, impulsionado por uma economia em crescimento.
Mas esse sucesso foi passageiro.

Desde a pandemia e a subsequente desaceleração econômica na China, mais de 40 clubes profissionais faliram à medida que empresas apoiadas pelo Estado começaram a retirar seus investimentos. As empresas privadas também se mostraram volúveis em seu suporte.
Em 2015, o Suning Appliance Group, que também foi proprietário do clube italiano Inter de Milão, comprou o Jiangsu FC. O clube venceu a Superliga em 2020, mas meses depois, o Suning anunciou que estava fechando o clube para se concentrar em seus negócios de varejo.
O fim do Guangzhou Evergrande, o time mais bem-sucedido da China, é mais um exemplo disso.
Patrocinado pela gigante imobiliária Evergrande, o clube conquistou troféu após troféu sob a gestão de grandes futebolistas italianos como Marcello Lippi e Fabio Cannavaro. Mas, enquanto alcançava glórias em casa e na Ásia, sua empresa-mãe estava se esticando demais no inflado mercado imobiliário.
O Evergrande agora é a empresa imobiliária mais endividada do mundo e o exemplo máximo da crise imobiliária da China, com dívidas superiores a US$ 300 bilhões (cerca de R$ 1,7 trilhões).
Seu antigo clube - agora nas mãos de novos proprietários - foi expulso da liga em janeiro. Após anos de excessos, a equipe oito vezes campeã ainda luta para pagar sua dívida.

Mas essa não é a única crise que está consumindo o futebol chinês. Sua ascensão rápida criou outro problema: a corrupção.
"Eu deveria ter seguido o caminho certo. Eu só estava fazendo o que era habitual na época", diz Li Tie, o ex-técnico da seleção masculina da China, em um documentário de 2024.
Nesse documentário, Li faz uma chocante confissão: por anos ele manipulou partidas e pagou subornos para conseguir certos cargos, incluindo 3 milhões de yuans (R$ 2,4 milhões) para se tornar o técnico da seleção nacional em 2019.
Vestido de preto, ele marca uma confissão por escrito com uma impressão digital de tinta: "Sinto muito."
A seleção nacional da China foi obrigada a assistir ao documentário pela emissora estatal CCTV enquanto se preparava para a Copa da Ásia do ano passado, no Catar.
A exibição no horário nobre foi o primeiro episódio de uma série de quatro partes sobre corrupção na China.
Nela, dezenas de oficiais chineses confessam - sempre para a câmera - níveis impressionantes de corrupção em diversas indústrias.
Ao exibir o episódio sobre futebol primeiro, as autoridades sinalizaram sua séria preocupação com a corrupção no esporte.
Li, que participou de uma Copa do Mundo e jogou no Everton, da Premier League inglesa, é a figura mais proeminente a ser presa no ano passado em uma série inédita de prisões contra a corrupção no futebol chinês. Em dezembro, ele foi condenado a 20 anos de prisão.

Também são expostos no documentário o ex-presidente da CFA, Chen Xuyuan, e o ex-diretor-adjunto do GAS, Du Zhaocai.
"A corrupção desses oficiais partiu nosso coração", disse um torcedor à CCTV. "Não estou surpreso", disse outro.
O documentário ecoou o que um ex-jogador da seleção nacional contou em um documentário de rádio da BBC em 2015, em uma entrevista anônima: que havia um sistema de "licitação aberta" entre os jogadores por uma vaga na seleção.
"Eu poderia ter conquistado muitas mais convocações, mas não tinha dinheiro", disse ele.
Seriam necessários mais 10 anos para que a corrupção no futebol explodisse e ganhasse destaque. Alguns sugerem que isso tenha sido motivado pelas atuações intoleravelmente ruins da China em campo.
As dificuldades da seleção masculina de futebol da China são ainda mais evidentes, considerando como outros esportes estão florescendo no país.
Décadas de investimento em infraestrutura e treinamento levaram a China de uma terra isolada do esporte para uma máquina de conquistar medalhas, que recentemente igualou os Estados Unidos com 40 ouros nas Olimpíadas de Paris.
Mas muitos desses são esportes individuais — levantamento de peso, natação, saltos — que exigem menos recursos e, crucialmente, menos ênfase em esforços comunitários de base, quando comparados a um jogo como o futebol.
Eles também são menos lucrativos e, portanto, menos vulneráveis à corrupção e à má gestão.

À medida que a economia da China enfrenta uma desaceleração prolongada, seus líderes têm desafios maiores do que as dificuldades no futebol.
Mas isso não consola os torcedores.
A derrota para o Japão, em particular, doeu muito. Enquanto o Japão tem melhorado em campo nas últimas duas décadas, a China falhou em se classificar para sequer uma única Copa do Mundo.
No dia seguinte à derrota, o jornal Oriental Sports Daily não poupou críticas: "Quando o gosto da amargura atinge seu ponto máximo, o que resta é a dormência."
De acordo com Dreyer, a abordagem do Japão é contrária à da China: uma visão de longo prazo, falta de interferência política e uma estrutura de clubes comercialmente experiente.
"Mesmo assim, a participação de torcedores aqui [na China] ainda é notavelmente boa", acrescenta. "Eles merecem muito mais."
A decepção dos chineses ficou evidente após a derrota de terça-feira contra a Austrália - mas também se refletiu no seu humor.
"Parece que a atuação da seleção nacional é tão consistente quanto sempre foi", escreveu um torcedor nas redes sociais.
Outro brincou que, se a China quiser continuar prosperando economicamente, sua seleção de futebol deve sofrer, para haver um equilíbrio na "alegria nacional".
Talvez eles tivessem ecoando o que um popular jornalista chinês escreveu em seu blog depois que o Japão venceu a China.
O futebol "não pode ser impulsionado por cânticos ou contação de histórias", ele observou. "Precisa de habilidade, treinamento físico e tático. Não pode ser realizado através da política."
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